Evaluación a Fome Zero
Entrevistas a Gustavo Gordillo,
Ex-Subdirector General de la FAO y Representante Regional para
América Latina y el Caribe
(Archivo 2003)
"Combater a fome pressupõe organizar a sociedade"
Por Cláudio
Cerri e Mônica Alterthum
Vencer a fome e a subnutrição
não é um desafio estritamente econômico. Nem se pode
pensar em enfrentá-lo apenas com instrumentos administrativos.
Para o subdiretor geral da FAO e representante da instituição
para a América Latina e Caribe, economista mexicano Gustavo Gordillo
de Anda, o requisito mais importante na equação desse problema
é a participação social. “Mesmo porque”,
explica, “fome é também um juízo de valor,
uma definição social e política. Há quem diga,
por exemplo: pobre é quem vive com menos de um dólar dia.
Bem, se um governo considera que cumpriu sua missão social ao assegurar
a cada cidadão trinta dólares por mês, OK. Mas sempre
haverá quem ache que não é melhor critério”.
Medir a subnutrição, portanto,
ou a fome, não é tão simples quanto parece. Ou quanto
gostaria o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso,
que considera irrelevante o problema no país. De acordo com a FAO,
existiriam 16 milhões de subnutridos no Brasil, ou 10% da população,
o que classifica o país entre as nações com grau
intermediário de subnutrição. A FAO adota o critério
exclusivamente calórico para dimensionar o fenômeno. Casos
extremos, como o de países africanos, ou o Haiti, incluem mais
de 25% dos habitantes com esse déficit nutricional. Gordillo ressalta
porém que o Fome Zero, ao incluir outras 25 políticas de
combate à pobreza, abrange uma faixa superior a 40 milhões
de pessoas.
O subdiretor geral da FAO acredita que
a execução de um programa com essa amplitude, num país
continental, pressupõe dois requisitos: definir seu marco institucional
e a participação popular dentro dele, bem como o timing
da sua implantação. Outro aspecto destacado pelo economista
refere-se à contrapartida de recursos brasileiros para obter empréstimos
externos destinados ao primeiro ano do programa. “Pelo que vi em
Washington”, enfatiza Gordillo, “o Fome Zero impressionou
muito o Banco Mundial (Bird), o Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) e, claro, a FAO. É um programa integrado, por isso genuíno,
que contempla também o fomento à produção
local. Creio que há recursos e disposição para financiá-lo.
Mas esses créditos pressupõem contrapartidas locais. Então,
esse primeiro ano, vai depender da capacidade do governo do Presidente
Lula de alocar verbas dentro do orçamento”.
O dirigente da FAO acredita que se o Brasil
viabilizar o Fome Zero, toda a sociedade será beneficiada. “Existe
um componente educativo embutido no programa que favorece a todos: é
o desenvolvimento da solidariedade, o exercício da cidadania. Esse
será talvez o legado mais importante do Fome Zero: organizar a
sociedade a partir do combate à fome”, conclui Gordillo de
Anda.
A seguir trechos de sua entrevista ao site
do Governo de Transição:
Na opinião da FAO, qual
é o tamanho da fome brasileira?
A FAO classifica os níveis de subnutrição
em distintas faixas. A intermediária, em que se encontra o Brasil,
vai de 5% a 15% da população. No estudo que a organização
acaba de publicar, “Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”,
comparamos dados de 1997/99 e verificamos que 10% da população
brasileira encontra-se subnutrida. Algo como 16 milhões de pessoas.
Como é feita essa aferição?
Basicamente, tomamos por base o número
mínimo de calorias requeridas para manter um nível de vida
saudável (1900 kcal/pessoa/dia). Transformamos isso em valor monetário
e comparamos com a renda disponível.
É diferente dos indicadores
de pobreza então?
Sim. Subnutrição, fome e
pobreza não se confundem necessariamente. Por isso às vezes
temos resultados distintos sobre o assunto. Tudo depende também
da composição da cesta básica de referência.
Se você inclui custos de moradia, por exemplo, amplia o leque. Isso
altera o universo que se pretende mensurar. A FAO usa como referência
o número de calorias. É uma medida bem específica.
Quais são os casos mais
graves na América Latina?
Na América Latina e Caribe há
países com índices de subnutrição africanos,
acima de 25% da população, como Haiti. E outros com problemas
graves de subnutrição, como Honduras, República Dominicana,
Nicarágua.
Mas o problema também persiste
nos EUA?
Sim. Ali temos um programa muito antigo,
o Food Stamps, remanescente do New Deal, nos anos 30. Efetivamente, depois
que se reduz o nível a 5% da população fica cada
vez mais difícil baixar essa taxa. Há um núcleo duro
da fome e da pobreza, formado por gente muito desorganizada, o que torna
difícil a sua superação. Mas não só.
Há faixas da população que vivem na fronteira da
pobreza e da subnutrição. Qualquer dificuldade conjuntural,
ou uma crise econômica, pode arrastá-los de volta a padrões
de carência nutricional perigosos. Por isso o correto é ter
redes de proteção social permanentes. Nas crises de 94 e
95 no México, por exemplo, e agora, na da Argentina, a inexistência
dessas redes tornou muito doloroso o ônus sobre as populações
fragilizadas.
O senhor distingue subnutrição
de pobreza. Esse é um dos pontos que serão aprofundados
na vinda da missão da FAO, BID e Banco Mundial para analisar o
Fome Zero, em dezembro? Sim. Um programa desse tipo é um
compromisso político que um governo assume frente à sociedade.
Então essa é uma pergunta crucial: quem é essa pessoa
que eu considero subnutrida? Esse é um juízo de valor político
e social. Quando um presidente diz “quero assegurar que cada brasileiro
faça três refeições ao dia”, ou então
estende isso à satisfação de outras demandas, trata-se
de um juízo de valor. Nós da FAO usamos um critério
restrito, o consumo de calorias, que não foca o universo da pobreza,
mas apenas um aspecto dela. Na América Latina há pelo menos
quatro indicadores distintos de aferição de pobreza. E cada
um chega a cifras diferentes. Mas sa média pode-se dizer que há
240 milhões de pobres na América Latina, conforme dados
da Cepal. Em contrapartida, haveria 55 milhões de subnutridos no
continente. Portanto, o universo subnutrido é mais restrito que
o da pobreza.
É difícil então
conceituar o que é fome?
Fome é uma definição
social e política, um juízo de valor. Há quem diga,
por exemplo, que pobre é quem vive com menos de um dólar
dia. Bem, se um governo considera que cumpriu seu compromisso social ao
proporcionar a cada cidadão pelo menos 30 dólares por mês,
OK. É uma escolha. Porém, haverá quem entenda que
esse critério não é tão justo.
Há uma polêmica no
Brasil sobre a melhor ferramenta para atingir os beneficiários
do Fome Zero: dinheiro ou cartão. Essa escolha não deveria
se pautar também pelo componente educativo que um programa desse
tipo requer?
Num país tão grande como
o Brasil, e regionalmente diferenciado, creio que não há
fórmula única para se atacar o problema. Mas a questão
de fundo é outra: um desafio como o da subnutrição
não pode ficar na dependência exclusiva da ação
do governo. Requer um acompanhamento popular. Essa é a questão
essencial. A experiência internacional mostra que quando há
participação, as chances de êxito aumentam. Portanto,
há que se ter um componente educativo, sim, mas especialmente voltado
para incentivar a organização social. Quanto à escolha
das ferramentas, creio que há argumentos bons à favor e
contra um e outro meio. Desvios podem ocorrer com cupom ou dinheiro. De
que depende se o desvio será maior ou menor? Novamente, da participação
popular. O programa tem que ser controlado socialmente. Cumprido esse
requisito, a escolha da ferramenta fica mais fácil: em alguns lugares
pode não ter rede digital; em outros casos é inadequado
entregar dinheiro. Há várias opções. Mas,
sempre, o divisor de sucesso é a organização popular.
O Fome Zero também enfatiza
o fomento à produção local de alimentos. Isso é
importante?
Creio que seja a parte mais inovadora do
programa, que tanto impressionou as instituições internacionais.
Se vamos destinar recursos expressivos para esse desafio, há que
se ampliar seus efeitos multiplicadores. Beneficiar um número grande
de pessoas entre consumidores e produtores é um dos pontos fortes
do Fome Zero.
Visto assim, o programa deveria
desencadear simultaneamente projetos de fomento à produção.
Há recursos internacionais para isso?
A reação que presenciei agora
em Washington, do Banco Mundial e do BID foi muito favorável. Há
recursos. Mas esses créditos internacionais exigem sempre uma contrapartida
orçamentária local. Assim o grande teste do programa neste
primeiro ano de governo do Presidente Lula será reservar uma parte
do orçamento para essa iniciativa. Isso é o que vamos ver.
A trajetória do Presidente
Lula, muito ligada a questões sociais, pode ajudar na negociação
de créditos externos?
O interesse dos organismos internacionais
deve-se a dois fatores. O fato de o governo eleito ter colocado a fome
como sua prioridade, e, depois, à natureza integrada do programa.
Temos muitas experiências de combate à fome no mundo. Mas
os organismos internacionais sabem que projetos integrados são
os mais consistentes. Nesse sentido, o Fome Zero é uma referência.
Qual é a formatação
mais comum dos programas existentes? Qual seria o mais próximo
do que se considera o ideal?
A maior debilidade desses programas é
que são fragmentados. Há iniciativas muito interessantes,
como o Progressa, do México. Transfere recursos a famílias
sob a condição manterem seus filhos na escola,ou levá-los
periodicamente ao pediatra. A mulher recebe os recursos porque ela é
que melhor administra a casa. Mas esses projetos não têm
a dimensão encadeadora do Fome Zero. O que se vê no mundo
são programas separados, sem sinergia. Na Jamaica, por exemplo,
há também experiências pontuais muito boas. Mas com
essa limitação. Daí a atenção que despertou
o Fome Zero nos organismos internacionais.
O que viabiliza o caráter
integrado de um programa?
A decisão política. A fome
decorre de muitas causas. O abandono da produção local é
uma delas. Implica, portanto, reconhecer que muitos atores precisam intervir
de forma combinada para resolver o problema. Esse entrelaçamento
só se consegue a partir de um compromisso político desde
cima até a base da sociedade. Como se fez com o Fome Zero, definido
como prioridade pelo presidente eleito.
No fundo, o sucesso depende dessa
parceria política?
Mais precisamente, depende da solidariedade
que se consiga despertar na população. É disso, afinal,
que estamos falando: solidariedade. Apoio de gente de distintas esferas
para os mais vulneráveis.
O Brasil teve um programa de distribuição
de leite implementado através de uma rede de 15 mil associações.
Foi extinto sob alegação de que havia corrupção.
Quanto maior a capilaridade mais vulnerável fica o projeto?
Não, a experiência mostra
o contrário. A fiscalização mais efetiva vem sempre
da própria sociedade. Eleger autoridades fiscalizadoras locais,
ligadas à comunidade, que trabalhem em conjunto com o governo,
pode ser mais eficiente do que qualquer aparato burocrático. Os
mecanismos administrativos podem ser úteis, mas sem a participação
direta dos interessados, não funciona. O beneficiado pelo programa
tem que ser seu próprio guardião.
Existe algum precedente no mundo
com esse tipo de adesão?
Sim, em muitas partes. O componente essencial
é responder a uma pergunta que parece fácil, mas é
complexa: o que leva uma pessoa a se organizar? O que leva uma dona de
casa, um chefe de família a dedicar parte de seu tempo, escasso,
a discutir o interesse comunitário? Organizar-se é investir
tempo em reuniões muitas vezes longas e aborrecidas. Tem que haver
algum incentivo inicial para romper a inércia. Não necessariamente
incentivos econômicos, mas sociais. Volto ao princípio: o
desafio maior do governo é despertar a solidariedade. É
preciso desenvolver esse espírito na sociedade ou não se
faz nada. Em muitos lugares, o reconhecimento oficial de quem trabalha
pelo programa já basta. Isso lhe dá prestigio junto à
comunidade. Em outras casos, como o dos médicos de pés-descalços,
ou os agentes de saúde, o elemento desencadeador é a contratação
de algumas pessoas. Mas precisa existir um incentivo desencadeador.
O desvio de 5% que costuma ocorrer
em programas desse tipo é significativo, comparado a projetos de
outras natureza –como crédito rural,por exemplo?
Não, não é. É
uma margem mínima. E muitas vezes a palavra desvio tem conotação
imprópria. A mulher em vez de alimentos compra remédios,
por exemplo. É desvio de finalidade, mas não é roubo.
Portanto, é bom definir muito claramente no programa o que é
desvio, para não haver confusão ao se avaliar seu desempenho.
Na maioria das vezes, o desvio decorre de motivos lícitos e justificáveis.
Por isso os 5% são irrelevantes.
Como escapar do caráter
assistencialista do programa?
Essa é outra palavra que requer
definição clara de sentido. Assistencialismo é mitigar
problemas no curto prazo, sem que se busque atingir as causas estruturais.
Um programa que busca atacar o curto prazo e, ao mesmo tempo, persiga
reformas estruturais, não é assistencialista. Agora, sempre
se pode combinar benefícios com a exigência de contrapartidas
para tirar o caráter passivo da adesão. Por exemplo: participação
voluntária em obras comunitárias. O essencial, porém,
é que a comunidade sinta-se dona do programa. Assuma-o como seu.
Se isso ocorrer, mesmo que na não haja contrapartidas de outra
natureza, o caráter assistencialista estará superado. O
assistencialismo não decorre da forma como se acessa o recurso,
mas sim do desdobramento do programa. Se o propósito é apenas
enfrentar adversidades no curto prazo, sem ir mais a fundo, é assistencial,
com ou sem contrapartidas. Se ele organiza a sociedade, deixou de ser
assistencial, porque se transformou em gerador de outros desdobramentos.
A eventual revisão de programas
sociais assinados entre Brasil, FAO, BID e Banco Mundial, para alocação
de recursos ao Fome Zero, é algo excepcional? Ou revisões
desse tipo ocorrem periodicamente, em especial nas trocas de governo?
São normais, são normais.
São corriqueiras mesmo dentro de uma única gestão.
Pela simples razão que esses projetos envolvem grandes valores
e metas que podem ser remanejados ao longo do tempo. A FAO, por exemplo,
trabalha com assistência técnica à agricultura familiar
brasileira há vários anos. Não existe incompatibilidade
em integrar isso ao Fome Zero. Há créditos internacionais
para combate à pobreza. Algumas linhas podem ser incorporadas ao
Fome Zero. Grandes projetos usualmente são corrigidos na margem
quando se começa a implantá-los. É disso que se trata.
É normal.
De tudo o que o senhor conhece
e discutiu sobre o Fome Zero, qual é o desafio que mais o impressiona?
Eu disse em Washington e alguns jornalistas
não entenderam: a implementação é o desafio
básico, não o financiamento, o cartão ou o benefício
em dinheiro. É desafiador justamente por aquilo que o programa
tem de mais notável: o fato de envolver inúmeros agentes
e variáveis. Mas isso não implica que não vá
ter êxito.
Mais concretamente, em que pontos
reside o problema da implementação?
Temos aí dois temas basicamente.
Em primeiro lugar, a estrutura institucional a partir da qual se vai desencadear
o programa...
Explique um pouco isso.
Bom, há distintas experiências.
Alguns países, inclusive o Brasil, quando adotam políticas
sociais, vinculam os programas à Presidência da República.
É assim no México também, no Chile e aqui, com o
Comunidade Solidária. O projeto nasce vinculado à Presidência,
envolve as diferentes áreas e é operado por um comitê
coordenador. Esse é um caminho. Outro é criar uma estrutura
própria: um ministério ou uma agência governamental,
com estrutura de coordenação política entre os ministérios,
mas com aparato próprio para a operação prática
das políticas. Em um, ou em outro caso, o mais relevante é
definir como se dará a participação popular.
Como ela se encaixa nessa estrutura
institucional?
Há vários exemplos. Aqui
mesmo no Brasil vocês têm o caso do Orçamento Participativo,
em Porto Alegre. Na Bolívia há outro caso interessante.
Os bolivianos elaboraram uma Lei de Participação Popular,
que está sendo aprovada pelo Congresso. Ela estabelece distintas
formas de participação nos vários níveis:
local, regional, nacional. Na Colômbia criou-se uma Lei de Descentralização
que amplia a participação popular. No México há
uma Lei de Desenvolvimento Rural Sustentável, que favorece a compatibilização
dos diferentes programas, federais, estaduais e municipais em cada região,com
participação comunitária ampla. Enfim, o Fome Zero
tem que escolher seu marco institucional. E optar por uma estratégia
de organização popular.
Uma lei de participação
popular não complicaria?
Bem, em alguns casos é uma lei,
em outros pode ser um regulamento. O que estamos ressaltando é
que precisa existir um contrato, um compromisso da sociedade com o programa.
Um compromisso de solidariedade participativa. Lei, contrato ou regulamento,
tanto faz.
E qual seria a segunda perna capaz
de colocar o Fome Zero para andar?
O cronograma de implantação,
o timing. É muito difícil executar um programa com tal abrangência,
num país de dimensões continentais como o Brasil, de uma
só vez. Fome Zero tem 25 políticas. Pode desenvolver as
25 juntas. Mas uma em cada área ou estado. Assim elas serão
testadas e as falhas corrigidas antes de sua implantação
em âmbito nacional.
A FAO avalia que 10% dos brasileiros
são subnutridos. Talvez para o grosso da população
isso pareça pouco, diante do muito que se exige para atacar o programa
e da complexidade de sua implantação. Não pode prejudicar
essa solidariedade que o senhor enfatiza?
Bem, o Fome Zero é mais abrangente.
Envolve mais políticas, como já falei, que incluem talvez
44 milhões de pessoas. É gente incorporada por outros critérios
que não apenas aqueles estritos de consumo calórico. Sua
legitimidade será conquistada a partir do momento em que todos
reconhecerem que a fome, subnutrição e pobreza são
problemas de toda a sociedade. De novo, falamos aqui em solidariedade
e ação governamental. Minha sensação é
de que os brasileiros estão sensíveis ao tema.
Além de combater a fome,
qual é o saldo que toda a sociedade pode esperar de um programa
desse tipo?
Vocês mencionaram o componente educativo
que esse programa requer. Muito bem, mas educativo em que sentido? Creio
que a resposta é: educativo para a cidadania. É para isso
que ele pode contribuir muito. O grande saldo, o mais importante, é
que o Fome Zero pressupõe organizar a sociedade. Organizá-la
a partir do combate à fome. É um saldo precioso.
Para FAO, 10% dos brasileiros são subnutridos
Por Eduardo
Kattah, Alexandre Rocha e Mariana Caetano
BELO HORIZONTE - O presidente eleito, Luiz
Inácio Lula da Silva, reagiu ontem com ironia aos comentários feitos no
dia anterior, em Oxford, Inglaterra, pelo presidente Fernando Henrique
Cardoso, a respeito do programa Fome Zero. "Eu não sei qual é o Brasil
que ele freqüenta. O que eu freqüento tem muita fome", comentou Lula,
sobre a avaliação do presidente. Na entrevista dada na quarta-feira, ao
programa brasileiro da BBC de Londres, o presidente havia dito que "há
casos raros de fome no Brasil. Há subnutrição". O presidente lembrou ainda
que "toda criança que vai à escola come na escola no Brasil. E 97% das
crianças estão na escola e estão comendo".
Em São Paulo, dois estudiosos do assunto
reagiram em diferentes tons à frase do presidente. Um deles, o subdiretor
da FAO Gustavo Gordillo de Anda, mostrou-se cauteloso: "Esse debate é
dos brasileiros. Trabalhamos muito bem com o governo FHC ao longo de oito
anos e vamos trabalhar bem com o governo Lula." O outro foi o próprio
coordenador do Fome Zero, José Graziano. "O conceito que trabalhamos é
o de segurança alimentar", disse ele. "Isso é o que o Lula quer dizer
quando fala que quer que as pessoas comam três vezes por dia.", disse.
Não estamos só preocupados com os famélicos, mas com a quantidade, a regularidade
e a qualidade da alimentação."
Graziano não quis, porém, comentar as críticas
de FHC. "Não vou fazer nenhuma consideração sobre o assunto, temos outra
agenda. Vamos detalhar o Fome Zero e estamos empenhados em recolher as
melhores informações possíveis", afirmou. Depois, insistiu em que os próprios
jornalistas entendam o programa. "Se vocês (jornalistas) lerem, quem sabe
as pessoas de mando entendam."
Cupons - Graziano quis desfazer a polêmica
sobre o uso de cupons ou cartões magnéticos. "Não há nada fechado. O que
importa é combater a fome, e por isso achamos que os recursos devem ser
vinculados à compra de alimentos. Se o sujeito quer comprar material escolar
ou construir sua casa, há outros programas."
Com os recursos vinculados, diz ele, os
desvios de dinheiro para outros fins não ultrapassam 6%. "A experiência
americana mostra que, quando se fornecem diretamente os recursos, o ganho
na alimentação não passa de 15%", disse.
Graziano anuncia vinda de missão do BID, Bird e FAO
Por Mariana
Caetano e Alexandre Rocha
O subdiretor-geral do Fundo das Nações
Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e representante regional
da entidade para a América Latina e Caribe, Gustavo Gordillo de Anda,
disse ontem em São Paulo que, pelos critérios da organização, cerca de
10% da população do Brasil é subnutrida, o que o situa entre os países
onde o grau de fome é tido como "intermediário". Ele evitou comentar declarações
do presidente Fernando Henrique de que não há fome no País.
"A entidade trabalha com três faixas de
classificação para medir a fome no mundo, segundo o total de calorias
consumido por dia", diz Gordillo.
Subnutrido é quem come menos de 2.200 calorias.A primeira faixa inclui países onde até 5% da população está nessa categoria.
A segunda faixa, na qual se encaixa o Brasil e boa parte das nações da
América Latina, como Chile, Costa Rica e México, tem índices de subnutrição
de 5% a 15%. A faixa seguinte chega a 25% da população subnutrida. Casos
mais graves, com índices acima de 25%, agregam-se à terceira faixa, mas
têm tratamento especial. No mundo, 84 países - a maioria na Ásia e África
- têm dificuldades para produzir e importar alimentos. Na América Latina,
Guatemala, Honduras, Nicarágua, Haiti, Equador e Bolívia se enquadram
na categoria.
"O Brasil poderá acabar com a subnutrição.
É um problema de vontade política. O que se fixou na conferência mundial
da fome é reduzir a fome no mundo de 840 milhões de pessoas à metade até
2015, mas não estamos cumprindo a meta", disse. Questionado sobre as declarações
do presidente, Gordillo foi evasivo: "Esse debate é dos brasileiros. Trabalhamos
muito bem com o governo FHC ao longo de oito anos e vamos trabalhar bem
com o governo Lula."
Em entrevista à BBC Brasil, o presidente
recomendou a Lula que cuide do controle da inflação "antes de retomar
programas sociais assistencialistas".
"Há casos raros de fome no Brasil. Há subnutrição",
disse o presidente, para quem a distribuição de alimentos é "um passo
atrás".
O coordenador do programa Fome Zero e integrante
da equipe técnica de transição, José Graziano da Silva, recusou-se a comentar
as críticas. "Não vou fazer nenhuma consideração sobre o assunto, temos
uma outra agenda.
Vamos detalhar o Fome Zero e estamos empenhados
em recolher as melhores informações possíveis", disse Graziano, referindo-se
à missão conjunta da FAO, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento
que virá ao Brasil em dezembro. Depois, fez um apelo para que se entenda
o programa: "Se vocês (jornalistas) lerem, quem sabe as pessoas de mando
entendam".
"O conceito que trabalhamos é o de segurança
alimentar. Isso é o que o Lula quer dizer quando fala que quer que as
pessoas comam três vezes por dia.", disse. Não estamos só preocupados
com os famélicos, mas com a quantidade, a regularidade e a qualidade da
alimentação."
Cupons - Graziano quis desfazer a polêmica
sobre o uso de cupons ou cartões magnéticos de valor fixado para trocar
por alimentos. "Não há nada fechado. O que importa é combater a fome,
e por isso, achamos que os recursos devem ser vinculados à compra de alimentos.
Se o sujeito quer comprar material escolar ou construir sua casa, há outros
programas."
Com os recursos vinculados, diz ele, os
desvios de dinheiro para fins que não a obtenção de alimentos, não ultrapassam
6%. "A experiência americana mostra que, quando se fornece diretamente
os recursos sem vinculação, o ganho na alimentação não passa de 15%",
disse.
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Toma de Posesión del Nuevo Gobierno de Brasil |
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Derecho a la alimentación en Brasil |
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